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terça-feira, 24 de agosto de 2010

UPP e eleições

Já ouví dizer que as UPP´s seriam eleitoreiras. Realmente não me surpreendo, dado o fato que realizações no passado, mormente no âmbito da Segurança Pública, sempre tinham como objetivo alavancar o pretendende a cargo eletivo, via de regra um secretário de segurança. Mas hoje ninguém pode dizer que as UPP´servem à canditatura do atual Secretário. Maledicências à parte, estas afirmações não passam de eco de periódicos absolutamente comprometidos com a teoria do quanto pior melhor. Não preciso dizer nomes, todos sabem a quem me refiro.
Não preciso ir em socorro das UPP´s; o povo sabe muito bem a sinergia benéfica que elas promovem. Sou vizinho de uma UPP, a da comunidade, futuro condomínio, do Santa Marta. Me obrigo a testemunhar benefícios para moradores no seu entorno, a valorização de seus imóveis, o retorno da vida noturna, o retorno do centro gastronômico, isto sem contar o benefício ao comércio local em todos os níveis.
Mas não é apenas este benefício material que deve ser enfatizado. O maior benefício é o exemplo dado aos menores, que antes tinham na figura do traficante, um ideal de vida, ainda que efêmera.
Cabe ainda a evolução paralela da educação; e aqui me refiro não apenas ao tão reclamada compensação financeira. Me refiro ao compromisso da qualidade do ensino que os educadores têm de ter, se querem merecer este nome. Tenho certeza que os cidadãos das comunidades pacificadas saberão cobrar logo, logo, o seu direito a uma educação de qualidade; direito de qualquer cidadão, não importa a sua inserção em qualquer que seja a classe social, a cor da sua pele, o seu credo religioso. Está na constituição este direito.
Já vencida a etapa da descrença, pois não crer ou não apoiar esta iniciativa do Estado é mera mesquinharia e pequenez, deve se partir agora para a plena presença do Estado, aliás como está sendo feito na vizinha Santa Marta, onde moram cidadãos meus vizinhos.
A educação deve ser a etapa de coroamento desta iniciativa.
Vejo que os horizontes se clareiam e se afirmam na direção da soberania. Soberania que somente será conquistada, quando todos os direitos civís foram plenos, quando a educação for de qualidade para todos, quando as oportunidades foram as mesmas para todos, quando então o fenômeno de um Presidente metalúrgico não seja um fato raro. Quando os filhos de todos os metalúrgicos, de todos os lenhadores, de todos os serventes, de todos os médicos, de todos os banqueiros, de todos os militares, de todos os empresários, de todos os professores, e de todos os demais Trabalhadores, tenham igual oportunidade de viverem com dignidade e aspirarem a comandar o seu Povo.
As UPP´s não são uma realização de caráter eleitoreiro não; são uma realização de caráter cívico. Servem como prelúdio de uma epopéia de libertação.
Que Sergio Cabral seja abençoado por esta iniciativa e que receba a justa recompensa para mais um mandato e que Deus lhe dê saúde para terminar esta obra. Que no futuro tenhamos vários Cabrais, vários Beltrames, várias Dilmas, não importa as suas origens. Para isto temos que construir agora muitas UPP´s. Estaremos sempre agradecidos.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os três talentos

Refletindo sobre a missão da futura Presidente, me lembrei da passagem no Evangelho onde Jesus fala da distribuição, antes da viagem do senhor, aos servos, dos talentos e que é citada em (Mat.25).
Em verdade posso dizer que Lula recebeu cinco talentos, em meio a tantos problemas, deficits enormes, economia estagnada, desemprego e todos os demais que caiam do saco de maldades do neo-liberalismo (aliás, neo-bobismo, como dizia o vaidoso, mas engraçado FHC)
Um dos talentos seria a esperança do Povo brasileiro, o principal; um outro seria a sua capacidade de resistir a tantas derrotas e provações; um importante, e que custou a chegar, ainda não plenamente, foi a democracia política, duramente perseguida; outro foi a nossa intrínseca tolerância racial e religiosa; Um enorme e rico país. E o último destes, mas não menos importante, a militância da esquerda, sem a qual não teria chegado a presidência. Militância teimosa como ele, aguerrida, chamada de jurássica, muitas vezes surrada nas ruas pelas forças policiais que teriam a missão de protegê-las.
Acho que foram estes os talentos. E se bem me lembro da parábola, o servo que recebeu um talento, enterrou-o como fizeram os seguidores do neo-liberalismo e acovardados diante de impérios outros, achando que a missão era guardar os recursos, que nem lhes pertenciam, sem multiplicá-los, tão dominados pelo medo estavam, medo que ainda tentam disseminar, pois ainda não entenderam que o Povo Brasileiro é seu verdadeiro senhor.
O segundo, também andou esquecendo da missão de multiplicar. Somente o terceiro entendeu a missão de multiplicar, e cheio da crença no seu Povo, foi capaz de ter sucesso e ser recompensado pelo Senhor.
Quanto ao primeiro? Ah, este foi "lançado nas trevas exteriores", como diz a Escritura.

Portanto, digo mais diretamente à aqueles que são crentes das Escrituras, as parábolas são lições e avisos. Se bem as entendermos facilmente poderemos perscrutar a alma das pessoas e do Povo. No caso presente, posso lhes dizer que o servo que multiplicou os cinco talentos ainda recebeu daquele que nada fez, pois assim foi ordenado.
Hoje vemos (nesta analogia, para os não crentes, ou neste retrato, para os não crentes), que quem entendeu a importância e a missão ao receber os cinco talentos, ainda terá como recompensa o que teria aquele inservível servo. Minas Gerais, e quiçá São Paulo, serão a demonstração clara, inequívoca e plena desta parábola, que me ocorreu na lembrança.
Conforme o tempo vai passando cada vez mais vai se afirmando esta analogia, ou parábola.
Os talentos vão se multiplicando e as recompensas vão se seguindo.
Independentemente de qualquer analogia, posso dizer que as nossas UPP´serão a maior prova de que valer acreditar, de que vale investir, são talentos que valerão ouro puro. Pelo menos Sérgio Cabral e Beltrame mostraram e estão tendo o reconhecimento do Seu Povo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O Galpão do Mariano

Há uns três anos mais ou menos estava comendo minha vianda e assistindo o jornal da tv. Resolví escrever um texto em que me baseava na audição do gaúcho que não abandonando seu sotaque, com toda elegância tentava explicar a situação da Segurança Pública que encontrara. Posso dizer como carioca que o cenário que se apresentava em 2006 era pior que “entrevero de adaga”. Era feio mesmo. Mas o que me chamava a atenção era o sotaque, tal qual meu amigo Toninho da Varig, lá de perto de Cruz Alta, que depois de quarenta anos de Rio de Janeiro se dizia “solito” e não sozinho.
Mas como dizia, lá em 2006, qualquer carioca pode atestar, a situação não era boa, e pior, as pessoas não tinham esperança de melhorar. E aparece um gaúcho taura novo para tentar alterar este cenário sombrio. Comecei a dar tratos à bola me lembrando de como o Rio de Janeiro, a antiga capital da república, já acolhera tantos outros ilustres gaúchos, Barão de Mauá, Pinheiro Machado, Getúlio Vargas, Leonel Brizola, Ernesto Geisel, Elis Regina, a Xuxa, e tantos outros que aqui pelearam e ainda contribuem até hoje para nossa riqueza. Dei o título ao artigo de “O galpão do Mariano”.
Ontem tentei em vão encontrá-lo. Lá, falava do fado destes que, vindo dos outras províncias para a capital, traziam costumes e expressões que alegraram a nossa maneira de falar e de ser. O que mais me emocionava era lembrar histórias que meu pai contava, quando carregava numerário (dinheiro em espécie) do cofre do Banco do Brasil no Rio de Janeiro, para todas as paragens do Brasil. Imaginem, armado com um simples 32 naquela época. Sempre contava histórias do Rio Grande, de indiada matreira, de bugres de alma de fronteira, de peleadores, de tropeiros, de milicos, de chinas, de pardos mal encarados que desconfiavam, ou desejavam, a carga escoltada.
A lembrança então que aquele senhor gaúcho me fez suscitar foi a poesia do galpão tradicional que meu pai fazia declamar quase todo ano:
“Velho galpão ancestral
encaixado na cochilha,
catedral e curunilha
do batismo do gaúcho
que foi levando a pátria nos tento
e dizendo aos quatro vento
que esta terra tinha dono,
não vivia no abandono.
Eivado de picumã,
três esteios, pau-a-pique,
até parece um cacique,
todo emplumado de pé
o verdadeiro Rei Sepé.”

e por aí ia, longuíssima, a gastar as tardes de domingo, onde queimávamos um churrasco lá no quintal, com a piazada enchendo mais a alma que a barriga.
Passado estes anos tenho que reconhecer como carioca que realmente precisávamos de alguém com alma de Brasil grande; alguém desligado das complicadas e indizíveis relações políticas e sociais vigentes à época e que não tivesse complexo de mariposa, como alguns antecessores, que não podiam ver holofote nem câmara. Relações estas que teriam de ser quebradas, pouco à pouco, com determinação e espírito público.
Muito foi conseguido, as UPP não só fizeram sucesso mas como também calaram a boca de muitos de espírito pobre.
Mas o mais importante é trouxeram de volta a esperança, a tantos que nem pensavam que seriam algum dia tratados como cidadãos.
E é a este gaúcho que presto hoje esta tardia homenagem. É em nome dos que, sem voz, não tinham mais esperança. É em nome dos cariocas que dormem e vivem agora sem medo. Falo como cidadão do meu Estado.
E para não me alongar mais do “velório de padre” digo: obrigado José Mariano Benincá Beltrame.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O guarda do banco, meu companheiro de caminhada.

Bem me lembro de um final de tarde caminhando pela Vanderbilt Avenue em Nova York, quando fui abordado na esquina com a 42, quase em frente ao Mello (o Mello aqui é meio gíria de Mellon Bank, mas insisto em assim pronunciar com intimidade, pois me considero meio parente via lado materno do fundador há mais de seis gerações, mas... não há nenhuma chance de herança). Era o ano de 1973 e nevava mesmo naquele janeiro super frio. Pensei que era um pedinte enregelado, não era, depois pensei que era assalto, também não era. O homem me oferecia crack por um preço bem barato. Estou falando de crack, coisa que aqui nem se conhecia. Reparei à distância um policial que observava a cena. Nem pensei em chamá-lo; os americanos chamavam os latinos, como eu, de cockroack (ou corochos como mesmo diziam os portorriquenhos) o que quer dizer “barata”, aquele inseto que habita o lixo. Como “barata esperta não atravessa galinheiro” era óbvio que eu não tinha nada que me meter nos “assuntos internos” dos outros (“assuntos internos” é como lá chamam a Corregedoria de Polícia). Não havia câmeras filmando, não havia nada a não ser transeuntes que passavam e não davam a mínima para o que se passava. Talvez pensassem: mais um latino viciado. Diferentemente do Michael Jackson não podia esconder minha morenice, era latino mesmo. Pude perceber então que o que havia era a existência de uma sociedade leniente, conivente e alienada. Talvez por vergonha, pois naquela época muitos dos “rapazes” que embarcaram heróis para o Vietnam voltavam dependentes de droga, derrotados, tanto militarmente quanto moralmente. Talvez pela parte saxônica em suas origens, talvez pelo fato que valorizavam o dinheiro mais do que tudo, não fora por acaso que Reagan oito anos depois mandou o Estado americano às favas; inaugurou o cassino global. Não posso precisar as causas daquela decadência, que depois soube ter sido minimizada pelo prefeito Rodolfo Giuliani com o programa “Tolerância Zero” à qual está subordinada a NYPD (New York Police Depart.), polícia municipal, que deve estar pagando pensão para aquele policial que me observava nos idos de 1973.

Passei uns oito anos depois na mesma esquina e já havia algumas câmeras apontando para aquele lugar em que outrora eu fora abordado como potencial consumidor de uma droga que ainda não havia chegado às ruas da minha cidade maravilhosa. Ninguém me oferecera mais uma pedra de crack, não fui abordado por ninguém, apenas o ponto de venda, a “estica”, mudara de lugar. O pessoal da segurança do banco botou os traficantes pra correr dalí, acabei sabendo por um segurança antigo que “hablava castellano” e insistia em praticar o idioma comigo, toda vez que ia lá pegar minhas diárias de viagem. Jamais consegui convencê-lo que se falava português por aqui. Não havia jeito, português era alguma língua lá da Europa. Mas ele mesmo, descendente de portorriquenhos, não o policial, tinha posto pra correr aqueles restos humanos que vendiam crack pra custear o seu consumo, alguns retornados do Vietnam com o peito cheio de medalhas. Parei naquela esquina e fiquei pensando naqueles meus compatriotas, (excluí o da minha casa, diga-se de passagem, era muito íntimo, muito), que retornaram da Itália em 1945 com a sensação de dever cumprido e prestigiado pelos seus. O lá de casa jamais se perdoou por ter matado jovens que nem ele. Morreu com esta mágoa cinqüenta e cinco anos depois. Começou a nevar, fui embora.

Fico refletindo qual teria sido a diferença entre a oferta escancarada dos anos 70 e a mais controlada do anos 80 ou mesmo 90. O que fez reduzir aquele escândalo? As câmeras? O segurança do banco? O “Tolerância Zero” do Giuliani? A conscientização da população? Ou todas acima sinergicamente combinadas?
Para mim parece claro que problemas desta dimensão e desta complexidade não comportam soluções únicas e simplistas. Implicam na articulação de diversos atores, os diferentes agentes de mudanças; e isto tem que ser grifado: agentes de Mudanças. De nada adianta a tentativa, por maior que seja a boa vontade em empreendê-la, por maior que seja o rigor em imprimi-la, se as mentes dos atores estiverem organizadas segundo valores e cânones do passado. Quem quiser abordar e resolver problema desta magnitude terá de partir de referenciais muito mais abrangentes do que a história escreveu; pois ela mesma continha as causas do problema, visto que este problema, sendo causa de muitos outros, é conseqüência de vários erros sociais e políticos que a antecedem. Sequer existe a justificativa no caso novayorquino de falta de recursos para resolvê-los. Esta sociedade era incapaz de se defender de si mesmo. Vinte anos depois se confirmava esta incapacidade. O ano de 2001 serviu como marco referencial da gigantesca aplicação de tecnologia e a incapacidade de fazê-la funcionar sinergicamente na solução de um problema. Era mais fácil colocar um veículo em Marte do que padronizar os rádios dos Bombeiros e sincronizá-los com os dos policiais que desciam as escadarias das torres do WTC. Mais de cinco mil mortos e uma destruição sem sentido, simplesmente porque no seio de sistema de segurança, suas câmeras, computadores e toda parafernália eletrônica, habitavam as causas da sua destruição. As mesmas causas que levaram o herói esquecido a vender crack em meio ao descaso dos transeuntes, em meio ao silêncio covarde dos que entravam e saiam do banco, aplicando suas economias na jogatina que se inaugurava, alardeada pelos que não mais podiam aplicar em ações das fábricas de armamentos que deixaram de ser consumidos no Vietnam. A segurança tinha sido orientada a proteger o banco e tolerou a ação indevida de um agente privado, pois o Estado estava ocupado com coisas “mais importantes” como os “Iran contra”, sem se perceber que a explosão do 747 da PANAM em Lockerbie, na Escócia em 1988, já tinha anunciado o que estava por vir. Em 1993, quando tentaram explodir as fundações do WTC, aí foi escandaloso. Todos os atentados precedentes foram financiados por ações quase inocentes: venda de produto pirata, cd´s e outros mais; exploração de jogo ilegal, exploração de casas noturnas suspeitas, e especulação na bolsa, e por aí vai. Ou seja, financiadas por atividades ilegais, ou quase, mas toleradas pelo senso comum, pelos cidadãos de bem.

Este artigo tem também esta finalidade, a de chamar atenção para o fato que a tecnologia é um fantástico catalisador de mudanças, desde que aplicado na reação certa, na quantidade certa, na forma correta, na temperatura conveniente para um fim definido. Fiz questão de citar o caso americano por ser mais do que emblemático; abundância de tecnologia e escassez de inteligência. Inteligência no sentido policial e no sentido comum.

Já vi pela internet cidades que instalaram milhares de câmeras de segurança distribuídas segundo alguma forma. Acredito que tenha existido uma redução da criminalidade de rua nas áreas cobertas pelo seu raio de alcance, tanto pela inibição, quanto pelo favorecimento da ação policial corretiva e preventiva. O aumento de número de câmeras espalhadas segundo uma estratégia de máxima cobertura terá uma conseqüente redução da criminalidade de rua, é senso comum. E aí vem a pergunta que é obvia, mesmo para quem não pratica a ação policial:- E as áreas onde a câmera não cobre, ou nem pode ser instalada? Estas áreas, evidentemente, dependerão da ação de outros agentes causais; sejam estes de natureza assistencial ou mesmo as que se ausentaram, o saneamento, a coleta de lixo, a escola de qualidade e, principalmente, a atenção dos demais concidadãos, que vem fechando os olhos para não ver até que ponto chega a alienação, o descaso, igual aqueles transeuntes que me olhavam como mais um viciado latino em Nova York.

Creio que o aprendizado é um processo contínuo, quando se parte das experiências e erros alheios e mesmo dos próprios. Experiências estas sempre realizadas no processo de solucionamento de problemas, sempre dirigidas ao útil; esteja o problema no plano prático ou no plano teórico. Mas para que o processo de aprendizado se instaure no indivíduo ou na coletividade, será necessária a estimulação de potencialidades daquele específico indivíduo ou do grupo, diria Vygotsky, no processo de contextualização do problema estudado através das informações que até ele chegam. Ressalta-se ainda a importância da contextualização da informação, no sentido de ofertar adequadamente diferentes visões sobre o objeto de estudo, gerando conflitos de idéias, essenciais para a acomodação do conhecimento. Fico me perguntando quanto de reflexão ou mesmo de debate foi despendido após Lockerbie, após 1998 e outros episódios. Foi o suficiente? Foram, o debate e a reflexão, precedidos da seleção dos elementos potenciais dos agentes da segurança? Foram aplicados conceitos vigentes, ou foram exercitados novos conceitos, novas estratégias, novas abordagens, partindo das potencialidades daqueles que praticavam a segurança? Estas questões terão de ser colocadas em qualquer que seja o fórum ou projeto relativo à segurança pública. E serão inevitáveis para a maioria das grandes capitais do mundo, mesmo nos países desenvolvidos, que se deparam com questões de exclusão social, crime organizado, descaminho de adolescentes, disseminação do uso de drogas sintéticas, pedofilia e um rol de maldades que não tem fim. Em todos os casos, a concatenação de fatores que se originam no seio da sociedade, nas suas disfunções, no ciclo vicioso das suas insuficiências, se realimentando em favor do crime, que em última instância, qualquer que seja o nível da riqueza da sociedade, é fruto da acomodação, da preguiça, e sempre, da conivência de alguém que beneficia de alguma forma, ou seja, da corrupção. Romper este ciclo vicioso é um desafio para todos os estados, todos países, principalmente aqueles onde a aglomeração se combina com a exclusão social. Só com a inteligência é possível quebrar este ciclo de dependências. Conforme Beltrame, 2008: Acima de tudo, romper a barreira imposta pelo crime requer uma virtuosa conjugação entre repressão e inteligência, prevenção e ataques à corrupção, integração entre práticas policiais e ações sociais em ambientes convulsivos. Se isso não ocorrer, a polícia acaba "enxugando gelo". A citação serve para embasar o conceito de sinergia positiva, por quem mais está envolvido nos problemas e nas soluções da Segurança Pública no nosso Estado. A expressão “enxugando gelo” bem expressa a resultante final da ação inócua, improdutiva e que consome recursos, até caros.

Esta conjugação dos dois agentes, um repressor, outro preventivo está perfeitamente em fase com o princípio da estabilidade dos sistemas. A degradação natural dos sistemas somente pode ser evitada com ação corretiva, isolando os agentes de “perda de energia”, os agentes desagregadores. A manutenção do estado organizado somente pode ser conseguida com aporte de energia. Por um lado, a ação que controla e limita a degradação, por outro, a ação que evita e previne o processo de decomposição. Estas duas vertentes têm de estar presentes no desenvolvimento e na concepção dos nossos projetos.

No desenvolvimento de projetos desta natureza, por maior que seja o aporte de tecnologia, vários componentes de estrutura, funcionalidade, comportamento e interação terão de ser avaliados perante as condições de uso, ou seja, perante as particularidades do ambiente social, econômico, financeiro, legal, geográfico, topológico, climatológico; em fim, perante a percepção da realidade. E é aí que se estabelece a dicotomia máxima do processo criativo: enxergar o conjunto geral e ao mesmo tempo perceber o detalhe. Só o olho da águia é capaz desta difícil tarefa: enxergar a área de cima, a mais ampla possível, e mirar na presa menor possível; se mirar apenas as grandes presas, baseado em estatísticas podemos afirmar: morrerá de fome. Temos que copiar da natureza, mais uma vez, esta habilidade. A habilidade de ver o todo e a parte seletivamente. Esta habilidade está intimamente ligada à capacidade de se ajustar rapidamente ao ambiente, à situação que nos encontramos, a distância entre o nosso objetivo e a posição presente, graduando o foco de nossa percepção.
O que desejar desenvolver projetos que apóiem a segurança, que contribuam realmente para a defesa da sociedade, do ponto de vista de sua eficácia, terá de observar este preceito: o de avaliar a sua inserção no contexto social e a de avaliar a sua operabilidade em uma extensa gama de situações, previsíveis e imaginárias. Será realista e visionário, terá de ser humilde e corajoso, terá de perceber a grandeza da visão das alturas e a paixão pelos detalhes.

Não temos torres tão grandes para proteger, não temos a riqueza ostensiva a defender, mas temos uma população que deseja desesperadamente alcançar níveis mínimos de cidadania e civilidade, deixando de ser escrava de traficantes, malfeitores e milicianos que cresceram em meio à ausência do direito, em meio à ausência da justiça, desfeita pelo arbítrio imposto de fora para dentro durante toda uma geração; arbítrio fomentador da impunidade que alimentou o verme da corrupção que devora as nossas entranhas.

O crack acabou chegando aqui; nem imaginava, há mais de trinta anos atrás, que eu mesmo iria participar de um combate que começou caminhando com um velho guarda portorriquenho lá no lado de cima do planeta. Diria para ele como epitáfio: El caminar hace el camino.